segunda-feira, 29 de dezembro de 2025

Comidas de terreiro ganham reconhecimento nacional em mostra da Fundação Palmares


A Fundação Cultural Palmares (FCP) promoveu, nos dias 16 e 17 de dezembro, uma mostra gastronômica de comidas de terreiro, em parceria com o Ministério da Igualdade Racial (MIR), em Brasília (DF). A atividade marcou o encerramento do edital “Prêmio Sabores e Saberes: Comida de Terreiro para Povos e Comunidades Tradicionais de Matriz Africana”, iniciativa voltada ao reconhecimento e ao fortalecimento dos saberes alimentares, culturais e espirituais dos povos de terreiro.


A programação, coordenada tecnicamente pela Fundação Palmares, incluiu visitas à sede da instituição e à Praça dos Orixás, também conhecida como Prainha, espaço sagrado localizado às margens do Lago Paranoá e referência para religiões de matriz africana, como o Candomblé e a Umbanda. No dia 17, a celebração presencial contou com um cortejo dos pratos premiados, seguido de degustações e momentos de diálogo com representantes do poder público, reafirmando o papel dos povos de terreiro como sujeitos históricos e produtores de conhecimento.


Ao todo, o edital contemplou 45 terreiros e comunidades tradicionais de matriz africana, distribuídos de forma equilibrada entre as cinco regiões do país. Além do reconhecimento simbólico, cada iniciativa recebeu um recurso de R$ 13 mil e um kit completo de cozinha, com o objetivo de fortalecer a infraestrutura das casas e garantir a continuidade das ações desenvolvidas nos territórios.


O Rio Grande do Sul esteve representado por Iyá Patrícia do Xangô, também conhecida como Mãe Patrícia, única liderança de uma casa de Candomblé do estado contemplada na premiação. Além dela, outras três iniciativas gaúchas foram selecionadas pelo edital.


Durante o evento, o presidente da Fundação Cultural Palmares, João Jorge Rodrigues, destacou que a gastronomia de terreiro vai além da dimensão alimentar. “Cada prato tem um significado profundo e estabelece uma conexão com os orixás. É uma comida que alimenta o corpo, mas também a alma”, afirmou. Segundo ele, reconhecer esses saberes é parte fundamental do enfrentamento ao racismo religioso e da construção de políticas públicas que dialoguem com a diversidade cultural do país.


Para Iyá Patrícia do Xangô, a participação no edital e na mostra gastronômica representa, antes de tudo, a afirmação da presença histórica do povo de Candomblé no Rio Grande do Sul. “Enquanto uma casa de Candomblé, o que isso representa é mostrar que existe o povo de Candomblé no Rio Grande do Sul, que existe o Candomblé aqui dentro, que ele é hereditário, que ele deixou herdeiros, e os herdeiros somos nós”, afirma.


Segundo ela, essa história está diretamente ligada à presença de povos negros que, ao resistirem às leis escravocratas, acabaram sendo abandonados no território gaúcho, formando comunidades e transmitindo saberes de geração em geração. “Se tu for olhar, a maioria somos mulheres, mulheres negras que não são de fora, que são daqui do Rio Grande do Sul”, destaca.


Iyá Patrícia chama atenção para a centralidade do caruru, comida de erê e de Xangô, como símbolo dessa ancestralidade. Para ela, o prato carrega não apenas um sentido espiritual, mas também econômico e histórico. “O quiabo movimenta a economia aqui na Serra Gaúcha. Ele é um legume originário da África, veio com os povos escravizados e hoje é amplamente plantado aqui, embora ninguém saiba contar essa história”, afirma.


Atualmente, a região concentra importantes produtores de quiabo no país, mas, segundo a ialorixá, o alimento não é reconhecido como parte da gastronomia local. Ela ressalta que práticas como o amalá e o caruru mantêm vínculos diretos com saberes ancestrais africanos, especialmente da Nigéria, preservados por meio da oralidade. “Esses saberes foram sendo passados de mão em mão. A importância disso é entender que existem muitas Áfricas no Rio Grande do Sul, e não apenas a África do batuque”, diz.



“Quando fizemos o amalá e o caruru para concorrer, nós tínhamos perdido as duas cozinhas. Essa premiação tem um sentido de resistência e resiliência”, destaca Iyá Patrícia.


Reconstrução, políticas públicas e trabalho coletivo


A ialorixá também relaciona a premiação ao processo de resistência vivido por sua casa de axé. Ao concorrer ao edital, o terreiro havia perdido as duas cozinhas em decorrência de dificuldades estruturais. “Quando fizemos o amalá e o caruru para concorrer, nós tínhamos perdido as duas cozinhas (decorrência da enchente de 2024) . Essa premiação tem um sentido de resistência e resiliência”, relata. A reconstrução do espaço só foi possível posteriormente, por meio da Política Nacional Aldir Blanc (PNAB) e de uma emenda parlamentar da deputada estadual Luciana Genro (Psol).


Em Brasília, Iyá Patrícia participou da preparação coletiva dos alimentos ao lado de outras lideranças religiosas de diferentes nações do Candomblé, como Angola e Ketu, vindas do Rio Grande do Sul, Rio de Janeiro e São Paulo. “Trabalhamos muito bem juntos, apresentando a mesma comida, mostrando que os saberes estão dentro de nós e são compartilhados em todo o Brasil”, afirma.


Do Rio Grande do Sul, quatro iniciativas foram premiadas, incluindo casas de Xangô e de Oxalá, uma delas localizada em Pelotas, cidade natal da ialorixá. Ela destaca especialmente uma comida dedicada a preto-velho, cuja receita atravessa gerações de uma mesma família há mais de 80 anos. “É uma comida que era feita nas senzalas, ensinada por uma mulher negra à sua família. Isso vem sendo passado até hoje”, relata.


Para Iyá Patrícia, os terreiros cumprem um papel que vai além da religiosidade. “A roça é um lugar de resistência, de saberes e fazeres, mas também de enfrentamento ao abandono histórico do povo negro, especialmente na Serra saúcha”, afirma. Ela lembra que regiões próximas a Feliz, como Montenegro, Tupandi e Bom Princípio, abrigaram algumas das maiores senzalas do estado, com centenas de pessoas escravizadas, um passado frequentemente apagado dos currículos escolares.


A ialorixá defende que dar visibilidade à gastronomia de terreiro é também enfrentar esse apagamento. “Como esse quiabo chegou aqui no Sul? Ele veio no corpo dos povos escravizados. Dar visibilidade a esse prato é contar essa história”, diz. Para ela, o caruru simboliza equilíbrio, infância e continuidade. “Nós não envelhecemos se não fomos crianças antes.”


Iyá Patrícia avalia que a ampla divulgação do evento, incluindo a presença de emissoras nacionais, tem impacto significativo no combate ao racismo religioso. “Ver autoridades sendo servidas por mães e pais de santo quebra muitos estigmas. A comida também foi demonizada, não só Exu”, afirma.


Ela defende ainda que a gastronomia afro-brasileira seja reconhecida como patrimônio cultural e amplamente difundida, assim como outras tradições culinárias. “Nós temos cozinha italiana, francesa, portuguesa, mas não temos a cozinha afro-brasileira reconhecida como deveria”, critica.


Por fim, a ialorixá destaca a importância de editais específicos para povos de terreiro e do reconhecimento do trabalho social realizado nesses espaços. “Os terreiros fazem saúde pública, acolhimento emocional, apoio financeiro. Isso precisa ser visto”, afirma.


Para ela, iniciativas como essa abrem caminho para que o Rio Grande do Sul reconheça sua própria diversidade cultural. “O estado não se conhece. Temos uma riqueza imensa dentro dos terreiros. Esse movimento precisa acontecer aqui, para o nosso povo.”


*Com informações da Fundação Cultural Palmares

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