Edição em Aracaju (SE)
Em 2003, Alagoas e o Brasil passavam por um novo momento político. Lula havia sido eleito Presidente da República e em Alagoas, Ronaldo Lessa derrotara Fernando Collor na disputa ao Governo do Estado e iniciava seu segundo mandato como governador.
Ronaldo já havia dado claros sinais de valorização do Turismo e da Cultura alagoana em seu primeiro mandato, mas guardou para seu segundo mandato a ideia de um dos projetos mais interessantes de divulgação de Alagoas.
Após uma reforma administrativa com tantas mudanças, criou-se a Secretaria de Articulação Externa (SAE) e convidou Patrícia Mourão, que vinha do Turismo, e Fernanda Reznik, que vinha da cultura, para a pasta que surgia com a missão de divulgar nacionalmente e internacionalmente as potencialidades e negócios de Alagoas.
Nesta mesma época, Ronaldo estava lançando o livro “Ronaldo Lessa - Coragem para Sonhar e Fazer”, baseado numa entrevista realizada dia 13 de junho de 2002, na residência de Iara Bentes, então Chefe do Cerimonial do Estado, à beira da Lagoa Mundaú, em Maceió. Com a participação do entrevistado, o governador Ronaldo Lessa, e dos profissionais de comunicação e professores Ari Cipola, Audálio Dantas, Fátima Almeida, Liara Gomes Nogueira, Rogério Moura e Ruy Xavier que coordenou os trabalhos.
Eliezer Setton
Então foi pensado um projeto de divulgação de Alagoas onde tivéssemos representantes do setor produtivo, turismo, cultura e a parte política ficava com a própria presença do então Governador, lançando o livro. Surgia aí o Alagoas de Corpo e Alma, timidamente. A área cultural era representada pela apresentação do coreógrafo e dançarino, mineiro radicado em Alagoas, Edu Passos, numa performance de cerca de 5 minutos. Depois, o cantor Eliezer Setton se dispôs a participar com um número musical e de curiosidades entre os estados de Alagoas e o que nos receberia.
Patrícia Mourão
Como lembra Patrícia Mourão: “A ideia surgiu numa conversa com o Governador Ronaldo Lessa, na época, num avião, inclusive o próprio nome do projeto, com o objetivo de fazermos uma divulgação integrada de Alagoas, que levasse cultura, turismo, possibilidades de captação de investimentos... e foi assim que começamos a estruturar o projeto. Começou pequeninho e foi ganhando forma, com estas grandes linhas que por um lado o próprio Governo, modernizando-se no sentido de manter-se afinado com o passado, por exemplo com aquelas duas palestras de Wanda Menezes e Zezito Araújo... a Wanda, inclusive, era a primeira Secretária da Mulher, no país. Além da palestra do próprio Ronaldo sobre negócios e investimentos em Alagoas, nas casas de indústria e federações do comércio nos Estados”, relembrou.Timidamente o projeto estreou, em sequência, em duas capitais: Natal, no Rio Grande do Norte, e em Fortaleza (CE). Cada uma num dia diferente, mas seguidos. Geralmente os locais de realização do evento eram cedidos pelos Estados anfitriões, como hotéis ou centros de convenções. A solenidade tratava-se de boas vindas dos anfitriões, um vídeo sobre a Alagoas daquele momento, aberta a investimentos, saudações de ambos os Estado por meio de seus respectivos governadores, palestras de Zezito Araújo e de Wanda Menezes, sobre a história negra em Alagoas e sobre a Delegacia e combate à violência à Mulher, respectivamente, e encerrava-se com a apresentação de Edu Passos, com uma performance de dança afro. Em seguida, Ronaldo Lessa fazia uma pequena sessão de autógrafos de seu livro.
Ronaldo Lessa
Segundo o próprio Ronaldo Lessa, atual vice-governador do Estado, e Governador à época:
“O Alagoas de Corpo e Alma surgiu da necessidade de divulgarmos nossas riquezas de forma mais efetiva dentro de um projeto cultural, pois já havíamos participado de workshops em Buenos Aires, em Santiago... mas precisávamos de mais divulgação aqui no Brasil mesmo, fazendo com que, por exemplo, o gaúcho viesse conhecer nossas praias, nossos artistas...
A ideia, claro, foi a de valorizar o nosso pessoal... os nossos artistas, fazendo com que acontecesse o que aconteceu após a pandemia: um turismo nacional forte aqui no nosso estado.
Ou seja, levarmos uma amostra do que tínhamos de melhor na música, na dança, no teatro, nas artes visuais...”, disse Lessa.
Foram dezenas de artistas locais ou radicados em Alagoas que participaram do projeto e guardam boas recordações, como Edu Passos, dançarino e coreógrafo: “Ouvi falar desse fabuloso projeto, quando fui convidado pela produção artística do mesmo, para ser o bailarino que faria um tributo ao líder negro Zumbi dos Palmares, através de um solo de dança afro. Aceitei de imediato. Na mesma época, o meu amigo percussionista Guda, que reside em Belo Horizonte/MG, estava passando uma temporada de férias em Maceió, foi quando convidei para ser o músico que ia tocar para eu dançar. Ele aceitou de imediato e formamos a dupla que faria o tributo ao Zumbi dos Palmares dentro do projeto. Tive o privilégio de participar de todas as edições do projeto. A que mais me marcou foi na edição de Belo Horizonte/MG. Sendo eu um mineiro radicado em Maceió, e com todos os meus familiares e amigos morando em Belo Horizonte, a maioria estava na plateia do Teatro Palácio das Artes para prestigiar o espetáculo Alagoas de Corpo e Alma. Para mim foi muito emocionante e marcante vendo os meus me aplaudindo de pé”, relembra Edu, demonstrando orgulho e saudades.
As duas primeiras edições foram consideradas um sucesso, mas já com detecção de pequenas falhas ou de futuras melhorias e aperfeiçoamento.
Havia muita curiosidade e admiração por Ronaldo Lessa, pela forma como ele já tinha governado Alagoas no primeiro mandato, quando dentre tantas coisas, ele adotou o uso do colete da Defesa Civil, em 2002 após fortes chuvas que castigaram o Estado. Deixando milhares de desabrigados. Em seguida, o governador se comprometeu a não deixar de usar o colete, enquanto não colocasse as contas do estado em dia e melhorasse o nível de vida da população.
Mácleim
Para Mácleim, cantor e compositor: “Eu participei da edição do Rio de Janeiro e também da de Recife. No Rio, fiz duas apresentações: uma no Pavilhão de São Cristóvão, que abriga a feira do Nordeste, e outra no extinto Canecão, que foi a apoteose do projeto, no Rio. O projeto foi um grande esforço do governo Ronaldo Lessa em divulgar, além fronteiras, a música e a cultura alagoana produzida naquele momento. Só por esse aspecto já merece todo reconhecimento positivo”.
Junior Almeida
Outro cantor e compositor que relembra com carinho do projeto é Junior Almeida: “Eu não lembro ao certo quando comecei a ouvir do projeto, porque na época eu trabalhava na Secretaria de Cultura do Estado e já vivenciava a movimentação. Eu participei de duas edições: a de Recife e do Rio de Janeiro, que foram duas experiências maravilhosas levando nosso trabalho apresentando bem, com uma estrutura bem montada e preparada para nos receber e aos produtos que o estado mostrava, e sempre com a presença do Governador do Estado na época, Ronaldo Lessa. Foi um momento importante para a cena musical, bem diversa, e por isso tive uma das melhores impressões possíveis para divulgar nossa arte, como um todo, de forma arrojada, e se na época eu já via tudo isso como importante, hoje em dia é que seria fundamental, levar um conjunto de pessoas tão diverso, para divulgar nossa arte tão rica.
A edição do Rio de Janeiro foi inesquecível, ainda mais por tocarmos no Canecão, com tanta gente boa daqui e nacionalmente como Toni Garrido, Hermeto Paschoal, Leila Pinheiro.
Além disso teve a temporada no Teatro Deodoro, num conjunto de artistas aqui de Alagoas, de primeira, e tudo com uma produção voltada e preocupada conosco. Foi sensacional”.
Canecão
Com Dona Ivone Lara
Edu Passos
Paulo Poeta e Chico de Assis, no espetáculo
"Graciliano- um brasileiro alagoano"
Toni Garrido e o nosso escultor de miniaturas
em palitos de fósforos, Arlindo Monteiro
Toni Garrido e o saudoso maestro José Cícero,
da banda de pífanos Esquenta Muié, de Marechal Deodoro
O Alagoas de Corpo e Alma, percorreu 10 capitais, todas do nordeste, com exceção de Salvador, e mais Belo Horizonte e Rio de Janeiro.
1. Natal
2. Fortaleza
3. Aracaju
4. Teresina
5. João Pessoa
6. Belo Horizonte
7. São Luís
8. Brasília
9. Recife
10. Rio de Janeiro
Em todas as cidades o projeto foi sempre bem recebido, pelo público, autoridades, parceiros e pela imprensa, como lembra Patrícia Mourão:
“A cultura também sempre teve um papel importante e crescente no projeto, no começo apenas com a performance de dança afro de Edu Passos, e depois com Eliezer Setton e culminou com toda aquela carga cultural, no Rio de Janeiro, em que ocupamos teatros, Sesc Copacabana, restaurantes e chegando no Pavilhão de Tradições Nordestinas, em São Cristóvão. O sucesso do espetáculo “Graciliano – um brasileiro alagoano", com Paulo Poeta e Chico de Assis, bem como o show de nossa culinária no SENAC, as artes plásticas... o Museu da República com lançamento de vários livros.
Tudo isso com parceiros importantíssimos como o SEBRAE, a Federação das Indústria de Alagoas, as secretarias de estado como a da Indústria e Comércio, da Comunicação, da Secretaria de Turismo, de Cultura, o Maceió Convention Bureau, os hotéis.
Mobilizamos uma galera gigantesca, sendo um projeto inovador e até hoje continua sendo, pois conquistamos espaços nas mídias nestas cidades e estados, como nunca. Ronaldo sempre era entrevistado nos jornais locais, principalmente nos “Bom Dia...”. O ACA foi um projeto inovador e arrojado e até hoje, se o projeto existisse, ele teria o mesmo impacto ou até maior, graças as parcerias que fizemos, mas sempre com a cultura abrindo portas com todo nosso potencial e histórico”.
O então Governador do Estado, Ronaldo Lessa, já vinha sendo reconhecido por seu trabalho de sensibilização cultural e turística, além da inovação planejada para os outros setores:
“O que vemos hoje, com certo conforto, foi construído no passado como o nosso Aeroporto, o Centro de Convenções... inclusive com melhorias que ocorreram daquele tempo para cá, como a necessidade de ampliação do nosso aeroporto.
Então, o Alagoas de Corpo e Alma foi muito importante, pois poder mostrar e falar de nossas potencialidades Brasil afora foi importante para nosso desenvolvimento.
Sem dúvidas foi uma decisão acertada investir no projeto Alagoas de Corpo e Alma, pois as pessoas que fazem nossa história, cultura, música, artes cênicas, pinturas. Eu acho que valeu!! Valeu ter construído essa história e para o futuro próximo vamos precisar de algo assim, nos profissionalizar um pouco mais no turismo por exemplo, onde temos uma evolução muito grande em outras cidades, coisas estruturais que, quem depende do turismo, como Alagoas, precisa fazer quando nos dispomos a divulgar nosso estado,”, concluiu.
Profissionalmente, o Alagoas de Corpo e Alma marcou vários artistas. “No Rio de Janeiro, me apresentei no Canecão. Umas das casas de espetáculos mais famosas da cidade naquela época. Essa experiência foi muito importante para mim. Meu sonho era assistir um show no Canecão, e quando me deparei, estava eu lá dançando naquele palco que sempre quis conhecer como espectador. Também a emoção de conhecer e encontrar nos bastidores um ídolo meu, o cantor e compositor Toni Garrido, vocalista da banda Cidade Negra, que participou desta edição do projeto Alagoas de Corpo e Alma, no Canecão, explica o emocionado o dançarino Edu Passos.
Alguns dos artistas que fizeram parte do elenco do Alagoas de Corpo e Alma:
- Allan Bastos
- Altair Pereira
- Arlindo Monteiro
- Banda de Pifanos Esquenta Muié
- Bateria da Escola de Samba Mangueira
- Betinho Batera
- Beto Leão
- Carlos Moura
- Chico de Assis
- Duofel
- Edu Passos
- Elaine Kundera
- Eliezer Setton
- Fagner
- Félix Baigon
- Graciliano, um brasileiro alagoano
- Hermeto Pascoal
- Ivone Lara
- Jorge Vercilo
- Juliano Gomes
- Junior Almeida
- Leci Brandão
- Leila Pinheiro
- Leureny
- Mácleim
- Máfia Nordestina
- Mirna Porto
- Nelson da Rabeca
- Paulo Poeta
- Ricardo Lopes
- Toni Garrido
- Tororó do Rojão
- Van Silva
- Wado
- Wilma Miranda
- Wilson Miranda
- Xique Baratinho
- Xote.com
- Zezé Mota
Todos os artistas nacionais que participaram do projeto, foram convidados por terem alguma história com o nosso Estado de Alagoas.

Com a Diretora de Articulação Nacional,
na época, Fernanda Reznik
Ter participado do Alagoas de Corpo e Alma também marcou minha vida, me dando mais experiência profissional e de vida. Trabalhei na Produção de todas as edições, já que trabalhava com Fernanda Reznik e Patrícia Mourão na Secretaria de Articulação Externa. Compartilhar de todos aqueles momentos com tanta gente boa de nosso Estado, principalmente dos artistas, em grande maioria meus amigos ou por quem eu já nutria uma admiração.
Algumas das lembranças do projeto são de dois grandes mestres que já se foram: Nelson da Rabeca e Tororó do Rojão.
No show, na edição do Rio de Janeiro, no Canecão, os músicos se apresentavam e eram seguidos um por um. Na vez de Nelson da Rabeca, pela sua idade e até inocência, foi combinado que ao acabar sua apresentação de cerca de 2 minutos, a Mestre de Cerimônias do evento, a atriz Zezé Motta, entraria no palco e o conduziria até os bastidores para o show seguir. O problema foi que Zezé se distraiu nos bastidores e Seu Nelson acabou a apresentação e ficou lá no palco, sozinho...Não deu outra: todo o Canecão o aplaudiu de pé e ele ergueu a pequena rabeca, com aquele sorriso e simpatia, como aqueles roqueiros erguem suas guitarras... o Caneção quase veio abaixo de emoção e felicidade... Zezé entrou no palco e teve que aguardar os aplausos diminuírem para que os dois saíssem do palco. Foi inesquecível!

Nelson da Rabeca, na Feira de São Cristóvão
Os outros dois momentos dizem respeito ao “Chaplim alagoano”, Tororó do Rojão. No primeiro deles, fui até o aeroporto Santos Dumont recepcionar àquele grupo de cerca de 30 artistas alagoanos que chegara. Vi todos rindo muito ao chegarem ao saguão e não demorou muito para que me contassem, que Tororó, tirando onda da aeromoça, disse que não queria aqueles biscoitinhos que estavam servindo. Ele disse: “Moça, isso não é comida não... me veja aí um cuscuz com charque para eu encher o bucho”. Disseram que o avião todo caiu na risada. No segundo momento, os alagoanos estavam se apresentando no Pavilhão de São Cristóvão, centro gastronômico nordestino. Eram dois palcos, um em cada extremidade do pavilhão... de repente a plateia de um dos palcos esvaziou, e quando fomos ver estavam todos no segundo palco assistindo a Tororó do Rojão, cantando entre outras músicas “Seu Cuca é eu”, além de fazer todas aquelas suas dancinhas e peripécias no palco. O público enlouqueceu com Tororó, e não queria que ele deixasse o palco, e na verdade, nem ele. Foi emocionante demais.
O projeto Alagoas de Corpo e Alma marcou uma época, ao mesmo tempo que se tornou atemporal, podendo ser replicado, com pequenas atualizações, principalmente tecnológicas, pois é um formato inovador e ao mesmo tempo simples de ser aplicado. Alagoas ganhou muito com o projeto marcando a vida de todos os profissionais que dele participaram.