quarta-feira, 29 de junho de 2022

Alagoas perde um de seus maiores artistas em xilogravura e do cordel


Faleceu nesta quarta (29) o artista em xilogravura e cordelista Enéias Tavares dos Santos, mais conhecido como Pica-pau. Infelizmente não sabemos a causa e nem mais informações desta grande perda para Alagoas, apenas o fato, noticiado pelo Museu Théo Brandão,  onde trabalhou por anos.

A xilogravura é uma das técnicas mais antigas, vindas da Idade Média. Em Alagoas, Enéias Tavares dos Santoso Pica-Pau, é o nosso maior xilógrafo. Enéias continua a encantar o mundo com sua arte. Chegou a ser tema de livros e pesquisas, como a publicada por Denilda Moura no livro O Poeta e Xilógrafo Enéias Tavares dos Santos, em 1983. O processo para produzir um quadro em xilogravura e passá-lo para uma ilustração de cordel não é tão simples quanto o resultado final tenta sugerir. Uma vez riscada, a madeira é talhada. Com o desenho esculpido, a peça vai para uma prensa que reproduz as cópias em papel. Aos 74 anos de idade, Enéias Tavares diz que aprendeu todo o processo sozinho. A relação com a arte brotou quando ainda era criança, aos 11 anos. "Vi um camarada fazendo carimbos, achei bonito e aquilo entranhou meu espírito. Dos carimbos com nomes de amigos e parentes, fui fazendo desenhos e depois rumei para a xilogravura”.

Nascido em Marechal Deodoro, Enéias Tavares dos Santos morou nos Estados de Sergipe e Bahia, trabalhou como feirante, carvoeiro e, também, como funcionário do Conservatório de Música de Sergipe, em Aracaju. Durante 25 anos, atuou no Museu Théo Brandão, produzindo xilogravura, cordel e pintura sobre o cotidiano de pessoas simples como ele. "Resolvi fazer tudo: vendedor de fruta, de sururu, amolador de tesoura. Comecei a passar para a xilogravura o que eu via na minha vida desde menino."

Ainda como funcionário do museu, aprendeu a fazer cópias de xilogravura. "Eu mesmo fiz a prensa de tirar cópias e fabriquei meus próprios instrumentos de xilogravura", orgulha-se. Os trabalhos de Picapau já foram expostos em cidades e capitais fora do Estado e até em Santiago do Chile. “O cordel de mais sucesso é ‘Carta de Satanás a Roberto Carlos’. A publicação aborda a música ‘Quero que vá tudo pro Inferno, composta por Roberto e Erasmo Carlos”, informa a curadora Hildênia Oliveira

Alguns trabalhos do artista foram publicados em formato de álbum, em Sergipe e em Alagoas. Em 1977, o clássico “Farinhada” foi publicado pelo governo de Sergipe, enquanto os álbuns “Sururu de Alagoas”, “Coqueiro da Praia” e “Coleção folclórica”, entre outros, foram editados pela Universidade Federal de Alagoas. “Uma parte desses álbuns estará à mostra no museu”.



Atuando desde a década de 1940, Enéias Tavares dos Santos, também conhecido como Picapau, diz que iniciou no ramo depois que viu “um rapaz fazendo carimbos”. “Achei muito interessante”, ele conta. “Comecei também a fazer, mas não sabia que aquilo era xilogravura. Na época, eu usava um pedaço de casca de cajá e uma gilete – a calçada como lixa. Tive duas professoras: a natureza e a necessidade."

O artista revelou que, em 1974, havia sido contratado para fazer trabalhos de xilogravura em Sergipe (PE), numa galeria de arte. "Foi quando perguntei o que era xilogravura e somente ali entendi que era o que eu já fazia."

Pica-pau publicou diversos trabalhos, entre os quais o famoso cordel “O Cavalo Ventania”, lançado em 1953. Vendia esse e outros volumes na antiga Feira do Passarinho, no bairro da Levada, na região central da cidade. Outra obra muito conhecida é “Jangadeiro alagoano”. "Fiz a xilogravura da maior parte dos meus cordéis. Quando os outros cordelistas descobriram que eu fazia esse trabalho passaram a me encomendar a capa dos cordéis."

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