Ele foi Ministro da Cultura no primeiro governo de Lula na Presidência, e fez parte da revolução na área. Gilberto Gil diz que recuperar o respeito pela diversidade cultural do Brasil e
planejar com responsabilidade governamental o desenvolvimento das manifestações
culturais nacionais são as principais urgências do terceiro mandato do
presidente eleito Luiz Inácio Lula da Silva para o setor cultural.
Para o músico, é necessário
voltar a tratar a área de forma abrangente, com atenção às origens da
identidade brasileira. Ele aponta, por exemplo, as matrizes afro-brasileiras e
indígenas.
O cuidado com relação à cultura precisa ser restabelecido,
defende Gil. "Porque isso foi sensivelmente prejudicado e perdido nos
últimos anos."
Ele diz que o folclore e a mistura dos povos, característicos do Brasil, são elementos fundamentais da criatividade popular e defende uma retomada no prestígio do que chama de agricultura cultural. "A agricultura simbólica, espiritual, que tem sementes riquíssimas e possibilidades de cultivos extraordinários."
Como mostrou o Estadão em setembro, o presidente
Jair Bolsonaro adiou repasses de quase R$ 7 bilhões das leis Paulo Gustavo e
Aldir Blanc 2 para 2023 e 2024. Uma manobra para permitir liberar verbas
travados do orçamento secreto.
Gil questiona a existência do Ministério da Cultura. No governo Bolsonaro, o MinC foi rebaixado e virou a Secretaria Especial da Cultura. Segundo ele, a estrutura pode não ser fundamental, desde que haja instâncias de governo comprometidas com a articulação das políticas públicas do setor.
Entretanto, indica que a recriação da pasta possa ser positiva em função da tradição. "O sistema cultural brasileiro se acostumou ao relacionamento com essa, digamos assim, autoridade cultural brasileira centralizada", diz.
Ele descarta reprisar a passagem pela Esplanada. E não
arriscou um nome para assumir a função numa eventual recriação. "Não tenho
nenhum porque teria pelo menos dez", afirma.
Mais música, menos política
Gil aponta que, embora extenso, superpopuloso e detentor de uma diversidade cultural vasta, o Brasil ainda arca com a carência de acesso a expressões culturais. "Há carências de acessos a todos os tipos de riqueza no Brasil. A de acesso à arte está associada às carências gerais do País."
Apesar disso, ele não menciona o governo Bolsonaro, à frente da gestão nos últimos quatro anos. Nem mesmo quando, durante o Festival Música em Movimento, na quarta-feira, 2, um coro contra o presidente foi puxado.
A plateia, na sequência, se manifestou favoravelmente ao presidente eleito e Gil se limitou a um comentário ligeiro e bem-humorado ao microfone, a única menção política dele no show. "Gritaram tanto 'Lula Lá' que ele acabou indo", brincou.
Qual é o papel da cultura no Brasil hoje?
O papel da cultura é muito amplo, muito vasto. Vai desde os empregos variados das línguas, das misturas de línguas, até as misturas propostas pela interracialidade, interetnicidade, pela interculturalidade: no sentido de culturas que migraram, de povos formadores do Brasil e foram formando o Brasil antigo, depois o moderno e agora desembocam no Brasil pós-moderno, que é uma complexidade muito grande. Um País extenso, uma das maiores populações do mundo, todo esse povo unificado numa língua e nas línguas derivadas todas. É uma cultura extensa, muito interessante e importante.
Se você segmenta o campo musical, então, é uma coisa incrível. A música brasileira por essas origens diversas se tornou uma das mais ricas, mais contempladas do mundo, se a gente fala de música popular e não só dela. Se você pensa em (Heitor) Villa-Lobos e tudo o que circunda uma entidade como aquela, produzindo música sinfônica e erudita. Os campos experimentais, os campos propriamente ligados ao folclore, que desembocaram na música popular e deram coisas extraordinárias e extremamente queridas e celebradas pelo mundo inteiro, como a Bossa-Nova e seus grandes criadores e autores. E sucessores da Bossa-Nova, como eu e tantos outros. O envolvimento do povo, os carnavais, as festas religiosas, populares, várias que se manifestam em várias partes do País. Os sotaques variados, europeus mediterrâneos, mais teutônicos, eslavos, africanos profundos, asiáticos, sul-americanos. Então é uma riqueza extraordinária.
Gilberto Gil diz qual deve ser a prioridade do governo Lula para Cultura em 2023. Para o ex-ministro, é necessário voltar a tratar a área de forma abrangente, com atenção às origens da identidade brasileira. Ele aponta, por exemplo, as matrizes afro-brasileiras e indígenas
Recuperar o respeito pela diversidade cultural do Brasil e planejar com responsabilidade governamental o desenvolvimento das manifestações culturais nacionais são as principais urgências do terceiro mandato do presidente eleito Luiz Inácio Lula da Silva para o setor cultural. Esta é a opinião do ex-ministro da Cultura Gilberto Gil.
Nesse terceiro governo Lula, qual é a urgência principal que um ministro da Cultura deveria atacar agora?
Retomar uma visão abrangente, holística, diversificada da Cultura brasileira. Respeitosa com as tradições, mas absolutamente aberta e sensível aos processos inovadores, renovadores, as transformações. Um dos segmentos mais criativos nesse sentido da inovação no Brasil - não só no Brasil, no mundo todo, mas no Brasil em especial - é a cultura popular. Então a retomada disso, num nível de prestigiamento e respeito que essas coisas merecem, a esse cultivo dessa cultura. Quero dizer, para além dos cultivos agrícolas e etc, é preciso criar dessa agricultura simbólica, dessa agricultura espiritual, que tem cultivares importantíssimos, sementes riquíssimas no Brasil, possibilidades de cultivos extraordinários. Enfim, acho que precisa é isso.
Não é necessariamente nem a existência de um Ministério da Cultura, mas de uma instância de governo que articule, dentro das estruturas de governo central e estaduais e municipais esse tipo de reverência à riqueza da música popular. Se o ministério facilita isso, no sentido das obrigações que o governo central teria que ter em relação a tudo isso, melhor que seja recriado.
Entretanto, indica que a recriação da pasta possa ser positiva em função da tradição. "O sistema cultural brasileiro se acostumou ao relacionamento com essa, digamos assim, autoridade cultural brasileira centralizada", diz.
Ele descarta reprisar a passagem pela Esplanada. E não arriscou um nome para assumir a função numa eventual recriação. "Não tenho nenhum porque teria pelo menos dez", afirma.
Apesar disso, ele não menciona o governo Bolsonaro, à frente da gestão nos últimos quatro anos. Nem mesmo quando, durante o Festival Música em Movimento, na quarta-feira, 2, um coro contra o presidente foi puxado.
O senhor vê um nome que pudesse assumir essa pasta e se ela existisse o senhor voltaria?
Eu não. Não tenho nenhum, porque teria pelo menos dez. E como só vai ser possível ser um, né?
Se o senhor pudesse dar um recado para esse ministro, o que
diria para fazer?
Atenção profunda, respeito à diversidade cultural, às várias fontes de produção cultural do País. Às várias matrizes propiciadas por essas fontes. A consideração profunda à diversidade de origens da cultura brasileira. Uma apreciação, um aumento do preço, do valor, de vários aspectos da cultura brasileira, como por exemplo o aspecto afro-brasileiro, o aspecto indígena brasileiro. O respeito histórico pela formação do Brasil e atenção profunda ao processo de encaminhamento da cultura brasileira em direção ao futuro. É isso.
Os que forem lá se incumbir das atividades, das gestões, do
estabelecimento das melhores relações entre o Estado e a sociedade, entre os
governos e a sociedade, para essa manobra toda da vida cultural, eu espero que
saberão cumprir suas tarefas e seus deveres.
Estadão


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