Minhas aventuras até chegar ao Jornalismo

Essa história faz tempo. Espero lembrar dos fatos relativamente próximos da realidade.

Em 1992, eu tinha 17 para 18 anos, e estudava no 3⁰ Ano Científico (era como se chamava à época) no Colégio Santíssimo Sacramento. O último ano de colégio, no 2⁰ grau. Éramos a Turma Doriana (pois a nossa "logomarca" era uma carinha que lembrava o comercial da famosa margarina) e o colégio tinha um sistema de som, que as freiras usavam para passar algumas músicas religiosas e dá avisos. Um ano antes, a turma que era do 3⁰ ano, iniciou algumas experiências como se fosse uma rádio,  pelo sistema de som do colégio, mas de forma muito incipiente.

Quando chegamos ao 3⁰ ano, eu já estava há sete anos no colégio e meus colegas e amigos, Cazuza (Evaldo Machado), Daniel Torres e Rodrigo Barbosa (Lua), já estudavam lá a vida toda. Então, já éramos conhecidos das freiras e pela coordenação do colégio,  além do meu primo Andrei Voss.

Por isso, fizemos a proposta à irmã Maria Helena, então vice-diretora e nossa professora de Religião, uma pessoa muito gente boa e próxima dos estudantes. Uma freira muita querida e amiga dos estudantes. Daí de conversarmos com ela sobre a possibilidade de criarmos uma espécie de rádio, no sistema de som, durante o intervalo principal, também conhecido por recreio. Eram cerca de 30 minutos de intervalo. Como estávamos no 3⁰ ano, estudávamos no período vespertino (tarde) e o recreio era por volta das 15h.

A programação musical era feita por nós mesmos, e fazíamos algumas brincadeiras como esconder senhas em locais do colégio com pistas e curiosidades e sorteávamos brindes como lanches em lanchonetes, bonés, camisetas, chaveiros... tudo conseguido com empresários e comerciantes que se amarravam nas nossas ideias loucas para passar no sistema de som de um dos colégios mais tradicionais e conhecidos de Alagoas.

As brincadeiras que valiam brindes era de adivinhação como: "Estou naquele em que você se lembra quando pensamos nos bombeiros". A resposta, claro, era: Extintor de incêndio. Só que a brincadeira era trazer a senha dentro do tempo estipulado. Ou seja, todos os extintores do colégio acabavam sendo mexidos e investigados pelos alunos em busca da senha. Era uma loucura, pois nessa brincadeira, corria-se o risco de um extintor cair no chão. Claro que sempre recebíamos um "pito" das freiras e da direção do colégio. Algumas vezes até ficávamos uns dias "fora do ar" por causa disso, algumas vezes até as plantas do colégio sofriam com a gente.

Mas a nossa "rádio" que se não me engano, se chamava Rádio Terceirão, também tinha aqueles momentos de "recadinhos do coração" , com cantadas, puxa-saquismos de professores etc... ou seja, fazíamos de tudo um pouco. Entrevistávamos, professores, alunos.. e utilizávamos alguns efeitos especiais que, geralmente Andrei conseguia nem sei como, pois naquela época não tinha Internet... eram barulhos de sirenes, de chuvas, de palmas. Era muita zoada. Tanto que várias vezes a porta da sala onde ficava a rádio, balançava com a coordenação batendo nela para pararmos com aquelas loucuras. Era massa, mexer com tanta loucura. Subvertíamos o sistema sem sequer nos darmos conta do que era aquilo.

Em paralelo à rádio, tínhamos uma pequena participação no jornal da turma, mas nada demais.

Quando terminamos o segundo grau, não passei no vestibular de Jornalismo, de primeira. E para não ficar de bobeira o ano todo, além de estudar em casa para o próximo vestibular, chamei meu primo Andrei e meu amigo Fábio Henrique, para produzirmos um jornalzinho que distribuiríamos nos colégios particulares de Maceió.  Eram particulares porque eram o público de nossos futuros anunciantes e patrocinadores, que nos ajudariam a manter a publicação e o nosso próprio trabalho. Assim surgiu o Jornal Alternativo. Infelizmente não tenho exemplares no momento que possa postar. O ano era 1993.


Com a minha amiga radialista Valéria Rodrigues

Era um jornal, tipo tablóide, dedicado à questões colegiais, como dicas para o vestibular, mas também com entrevistas com artistas e bandas famosas que vinham fazer shows em Maceió. Foi assim que tive o prazer de entrevistar e conhecer: Os Titãs (meus ídolos  e primeiros entrevistados e que pude contar com a ajuda e colaboração da minha querida amiga radialista Valéria Rodrigues, que à época trabalhava na Rádio Gazeta Fm (94,1) e que difundiu minha entrevista com os Titãs, naquele sábado à tarde.

Mas voltando ao jornal. Meu primo Andrei já tinha uma certa noção de diagramar. Lançamos um primeiro número,  com mais de 3 mil exemplares e distribuímos nas portas dos colégios. Foi arretada a recepção. Tanto que procuramos uma outra gráfica,  com melhores serviços e preços e conhecemos a antiga Ecos Gráfica, de Ediberto Ticianeli, que ficava no bairro do Trapiche. 

Para quem o conhece, sabe que Ticianeli fala na lata. Ele olhou nossa primeira edição e disse, sobre nossa diagramação: "Está uma merda, mas pode melhorar!". Ele se prontificou, junto com sua cunhada e diagramadora da gráfica, Valnar, a nos ensinar. E assim.o fez, nos apresentando ao programa Pagemaker. Essa sinceridade e orientação de Ticianeli, foram fundamentais. Fizemos várias edições do jornal com ele. Nesta época, o Governo Itamar Franco, lançou o início do Plano Real,  com a adoção da URV (Unidade real de valor (URV) foi a parte escritural da atual moeda corrente do Brasil, cujo curso obrigatório se iniciou em 1º de março de 1994. Foi um índice que procurou refletir a variação do poder aquisitivo da moeda, servindo apenas como unidade de conta e referência de valores. Era uma preparação para adoção do Real, que nesta época era equiparado ao dólar. 

Não foi fácil. Era um momento de transição econômica  e era difícil conseguirmos anunciantes e patrocinadores. Nesta época,  estávamos só eu e Andrei, pois Fábio havia passado no vestibular e não pôde seguir no projeto. Andrei estava cursando Computação,  na Ufal, se não me engano. Mas sempre foi tão doido ou mais, do que eu.

Nesse meio tempo, a Rádio Cidade Fm, chegou a Maceió,  e eu sempre fui "rato de rádio", desde 1988, com meus 14 anos. E alguns conhecidos meus estavam na Rádio Cidade, como a querida Cristina, Arla Coqueiro e conheci o baiano, Jairo de Andrade, com seus mais de 2 metros de altura, criatividade e loucura. Era Diretor de Programação e locutor. Gente muito boa. E sempre foi muito atencioso comigo, um fã da rádio.

Jairo de Andrade (foto atualmente)

Bem, o tempo passou e Jairo foi para a Rádio Maceió Fm, do Grupo Bulhões de Comunicação, no 7⁰ andar do Edifício Rui Palmeira, no bairro do Farol. Jairo criou uma campanha, naquele 1993: "Maceió Fm: a rádio sem vergonha de ser a número 2". Porquê isso? Porque todo mundo se anunciava como a número 1: Gazeta Fm, Rádio Cidade... e então Jairo disse: "Então seremos a número 2, sem vergonha de ser feliz". Foi uma revolução,  com várias ações de Marketing. Época de ouro para aquela rádio,  que ainda tinha um programa massa aos sábados: o Galera da Hora, com os amigos Edjane Melo, Tutti e Marcelo Jorge. O programa era bastante extrovertido e ia ao ar, acho que das 14 às 18h, e que tive o prazer de participar com algumas colaborações. Nesta época, Jairo criou uma campanha de natal da Rádio que premiaria o 1⁰ lugar com uma vaca e o segundo lugar com uma moto 0 Km. Lembrando que naquela época, ser segundo lugar era melhor. Os ouvinte respondiam, por carta à pergunta: Qual é a Rádio que não tem vergonha de ser a número 2? 

Marcelo, Tutti e Jairo, na Maceió FM

A participação era por meio de cartas e o sorteio aconteceu numa transmissão externa, aos cuidados dos técnicos Pelé e Abraão, de uma barraca de praia, na Praia de Jatiúca, durante o Galera da Hora, antes do Natal. E  para surpresa de todos, após o sorteio do 1⁰ lugar, Geraldo Henrique, um dos filhos de Geraldo Bulhões (que na época era Governador de Alagoas) e que dirigia a Rádio,  levou uma vaca num caminhão para a barraca, para o sorteado ir buscá-la ao vivo. Foi uma loucura arretada!!!



Como eu vivia na Rádio redigindo textos e ajudando voluntariamente, pois era um aprendizado, eu e Andrei pensamos em fazer o Jornal Alternativo na rádio... mas essa ideia ficou entre nós, até que, certo dia, encontrei com Jairo de Andrade no Shopping Iguatemi, numa ação de marketing da rádio num estúdio montado no corredor do shopping. Era uma quarta ou quinta-feira. Conversamos e perguntei a ele o que acharia da ideia de criarmos um programa de rádio baseado no Jornal Alternativo que fazíamos para o público secundarista de Maceió. Ele me olhou, com aquela cara de sarcasmo que tinha e disse: "Faça um projeto do programa e me apresente na segunda que vem ao meio-dia na Rádio". Eu adorei a disposição dele e me assustei com o pouco tempo. Ao chegar em casa (não havia celular ainda) e liguei para Andrei para contar a proposta. Ele adorou, mas só nos encontramos no domingo à tarde e ficamos até à noite, umas 22h, na casa dele, pois ele tinha computador e eu não, e escrevemos a proposta. Estávamos no fim do mês de agosto de 1993. Chegamos na Rádio,  e Jairo estava no ar, pois também era locutor. De meio-dia às 14h as rádios só colocavam no ar programas românticos, de música lenta. Sentamos no estúdio da Maceió Fm e Jairo adorou a ideia e disse que seria ele o locutor que faria com a gente o programa. Nós já tínhamos possíveis patrocinadores como: Curso Pré- vestibular Objetivo, Colégio Carlos Drumond, Chopp's Shop etc...

Jairo pegou um calendário e disse: estamos aqui ( já na primeira semana de setembro) então,  aqui a gente estreia: 09 de outubro de 1993. Cerca de um mês para bolar os quadros, gravar vinhetas, gravar chamadas, agendar entrevistados... mas topamos na mesma hora! Claro!!!



Durante a gravação da entrevista com o "terrorista"

Uma das entrevistas que gravamos para exibir na estreia foi com um amigo nosso (que mesmo já sendo conhecida a sua identidade, vou preservá-lo) conhecido nos colégios como: "o terrorista do banheiro do Sacramento". Pois ele ficou conhecido por colocar bombas juninas nos banheiros do Colégio que estudávamos: Santíssimo Sacramento. Ele, depois, foi para o Madalena Sofia, e levou a sua "arte" o que, depois facilitou sua identificação, também após sua entrevista ao nosso programa, que foi ao ar com sua voz sendo modificada digitalmente. 

Ah, o programa seria aos sábados,  das 10h ao meio-dia. Quando cheguei na Rádio, antes de Andrei, que estava em aula, ainda, na UFAL, soubemos que a rádio estava fora do ar por problemas, recorrentes, no transmissor. A estreia foi adiada para a semana seguinte; 16 de outubro.

Regravamos as chamadas de estreia e quando o programa ia começar,  deu uma pane na mesa de som. Foi aí que entro Abraão, um dos técnicos da rádio e que hoje está na Polícia Militar de Alagoas. Abraão disse: podem começar o programa que eu ajeito a mesa durante o programa. E fomos lá. Eu e Jairo, e depois chegou o Andrei, vindo da Ufal. Na época as músicas iam ao ar por meio dos discos de vinil e algumas em CD e as vinhetas, aberturas e comerciais eram em cartuchos. Fizemos o programa. Jairo na locução, eu em pequenas participações, com Abraão mexendo na mesa de som, até a primeira metade do programa e a entrevista com o terrorista do banheiro do Sacramento foi ao ar, num sucesso estrondoso e assim continuamos. Ah, como a rádio Maceió Fm naquela época era bem popular, com músicas do Axé baiano e coisas assim, a ideia era que o nosso programa entrasse no ar como fosse uma interferência pirata, e assim era a abertura e slogan: Rádio Alternativa, a melhor interferência no seu rádio. Lembro que fiquei até a madrugada do dia que iríamos gravar as vinhetas, pensando no slogan anotando no meu caderninho.

Ficamos aos sábados pela manhã por uns dois meses e em seguida fomos para as tardes de domingo, das 16 às 18h.

O nosso contrato era de seis meses, então ficamos no ar até final de março. Não renovamos por vários motivos, mas o principal foi a mudança na Rádio. O dono da rádio,  Geraldo Bulhões, quando soube que a rádio dele "não tinha vergonha de ser a número 2", detestou. Mandou tirar esse slogan e as vinhetas e deixou a rádio mais brega ainda, o que só agradou à Gazeta Fm e à Rádio Cidade, pois a Maceió perdeu audiência. Mas saímos na paz. Foi uma experiência única. Alguns dias depois, passei no Curso de Comunicação Social, com Habilitação em Jornalismo,  pela Universidade Federal de Alagoas (UFAL), em segunda chamada.

Depois, começei a fazer a diagramação dos jornais com meu amigo Daniel Torres Guimarães. Uns três ou quatro anos depois voltei ao grupo Bulhões, agora pela Rádio Jovem Pan Fm. Mas aí já é outra história.

2 comentários:

  1. Muitos bom saber uma parte de sua trajetória.

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  2. Obrigado, mas se puder se identificar, eu agradeceria..

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