Em 1912, Alagoas viveu um dos episódios mais graves de intolerância religiosa de sua história: o Quebra de Xangôs. O termo designa a onda de perseguições, invasões e destruições de terreiros de Xangô — culto afro-alagoano ligado à tradição nagô — que se espalhou principalmente por Maceió e arredores. Líderes religiosos foram presos, espancados e humilhados; objetos sagrados foram quebrados ou queimados em espaços públicos; comunidades inteiras passaram a viver sob medo e clandestinidade.
O ataque ocorreu em meio a um cenário de crise política no estado. Com a deposição do então governador Euclides Malta, setores conservadores e forças policiais passaram a associar os terreiros ao antigo poder, usando essa narrativa como pretexto para ações violentas. Na prática, o episódio escancarou o racismo religioso institucionalizado do início do século XX, quando práticas culturais negras eram criminalizadas e tratadas como ameaça à ordem.
As consequências foram profundas e duradouras. A violência imposta obrigou casas de culto a fechar as portas e empurrou a religiosidade afro-alagoana para a invisibilidade. Nas décadas seguintes, consolidou-se o período conhecido como “Xangô rezado baixo” — expressão que traduz o silêncio imposto pela repressão, com rituais realizados discretamente, longe dos olhos do Estado e da sociedade hostil.
O Quebra de Xangôs não foi um caso isolado no Brasil, mas, em Alagoas, assumiu contornos extremos. Ele integra uma política mais ampla de repressão às culturas afro-brasileiras, comum à época, quando códigos penais e ações policiais perseguiam terreiros, sambas e outras expressões negras. O episódio deixou marcas na memória coletiva e na formação cultural do estado.
Hoje, mais de um século depois, o Quebra de Xangôs é reconhecido como um crime histórico contra a liberdade religiosa e cultural. Resgatar essa memória é essencial para compreender as desigualdades persistentes, fortalecer o combate à intolerância religiosa e reafirmar o direito à diversidade. A história que tentou ser apagada segue viva na resistência dos povos de terreiro e na luta por reconhecimento, respeito e reparação.
Mãe Marcelina: símbolo de resistência do Xangô alagoano
Mãe Marcelina é uma das figuras mais emblemáticas da história das religiões de matriz africana em Alagoas. Ialorixá respeitada, seu nome está diretamente associado à resistência do Xangô alagoano após o traumático episódio do Quebra de Xangôs, em 1910, quando terreiros foram destruídos e líderes religiosos perseguidos pelo poder público.
Após a onda de violência que tentou silenciar os cultos afro-brasileiros no estado, Mãe Marcelina tornou-se referência na preservação da fé e dos saberes ancestrais. Em um contexto de medo e repressão, ajudou a manter vivos os rituais, orientações espirituais e tradições do Xangô, ainda que de forma discreta. Esse período ficou conhecido como “Xangô rezado baixo”, marcado pela prática religiosa quase clandestina, imposta pela intolerância e pelo racismo institucional da época.
Mais do que liderança espiritual, Mãe Marcelina exerceu um papel social fundamental. Seu terreiro — assim como outros que resistiram — funcionou como espaço de acolhimento, proteção e transmissão de conhecimentos, especialmente para a população negra marginalizada. Sua atuação garantiu a continuidade de uma tradição que poderia ter sido interrompida pela violência do Estado e pelo preconceito social.
Hoje, Mãe Marcelina é reconhecida como símbolo de resistência, dignidade e coragem. Sua trajetória representa a força das mulheres negras na defesa da cultura afro-brasileira em Alagoas e reforça a importância da memória histórica no combate à intolerância religiosa. Lembrar Mãe Marcelina é reafirmar que, apesar das tentativas de apagamento, a fé, a cultura e a ancestralidade seguem vivas.


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