Viver em apartamento nunca é fácil, pois as pessoas ocupam espaços comuns, muitas vezes com outras com as mais diferentes formações, e formas de ver a vida, mas a intolerância que vem sobressaindo no Brasil de uns anos para cá, dificulta e muito a convivência, mesmo porquê, em casos assim, os opostos se afastam.
Moro num apartamento alugado há 15 anos, e vi e vivi diversas situações, das mais engraçadas às mais asquerosas, como briga de casal, de família, barulhos dos vizinhos, crianças educadas e crianças nem tanto. Particularmente, sempre relevei essas pequenas coisas, como barulhos. Apenas uma vez, no início de meu contrato neste condomínio, devido aos altos barulhos ocorridos tarde da noite, é que fiz uma reclamação por escrito ao síndico, pois eram barulhos, vindos do apartamento do andar de cima que me assustavam em horários de sono, bem depois das 22h.
Mas mesmo neste caso, quando a moradora foi notificada da reclamação, ela veio falar comigo, pedindo desculpas, educadamente, e me explicou que, não lembro ao certo, mas parece que ela trabalhava durante o dia, em turnos variados, e quando chegava, era muito tarde, e o cachorro dela se agitava quando ela chegava em casa. Resultado: nos demos muito bem, ficamos amigos. Os barulhos continuaram, mas aí eu já sabia a causa e me coloquei no lugar dela. Trabalhadora que criava um(a) cãozinho ou cadelinha que sentia saudades de sua tutora. Pena que ela teve que mudar de cidade, e nesse meio tempo descobri que ela era irmã de uma colega minha de trabalho. Mas a tolerância e empatia deram o tom de nossa relação.
Nunca fui de ficar reclamando de vizinho. Pois cada um tem seus problemas e se não nos colocarmos no lugar do outro, iremos brigar com todo mundo e aumentar as chances de infarto.
Hoje vivo sob a clava da intolerância por causa da família felina que criamos.
Durante a pandemia, meados de julho de 2020, fomos visitados por uma gatinha simpática, mas mal tratada, que estava com fome, e além disso, estava na rua com um casal de filhotes desconfiados. Minha irmã se encantou logo por eles, e eu dei meu braço a torcer em seguida, pois tivemos outros amiguinhos assim, como gatos e cães e tivemos que nos separar por motivos dos mais diversos e eu estava ressabiado e relutante em me deixar envolver, tanto que no início, eles só vinham comer e saíam. Depois eles ficavam só na varanda, mas depois nos apaixonamos pela família toda batizando-os como Gerusa, a mãe; e Belinha e Juninho, os filhotes.
Eles então também nos adotaram. Castramos, medicamos e alimentamos essas crianças de 4 patinhas. Estão lindos.
Mas esses gatinhos já eram criados na rua, antes de virem viver conosco, e ficam muito tempo fora do apartamento, e como moramos no térreo eles saem e voltam quando querem.
Várias vezes chegaram em casa trazendo presentes como: baratas, ratinhos, lagartixas e até um pombo, certa vez. Esses são atos de bondade e confiança dos gatos para conosco, que claro nos trouxeram pequenos sustos e aborrecimentos, mas sempre fomos compreensivos e tolerantes com as "crianças".
Os três passam a maior parte da noite e de madrugada, do lado de fora do apartamento, nas áreas comuns, como o estacionamento e o jardim.
Em algumas destas saídas, claro, os gatinhos chegam a deitar sobre um carro ou outro, neste caso sempre os repreendemos, mas como fazer isso claramente com 3 gatos? Difícil, mas tentamos.
Há algumas semanas recebemos reclamações do síndico e de uma moradora, pois a Belinha, uma das gatas, foi filmada roendo uma capa protetora de um dos carros. Prontamente mandei uma mensagem por WhatsApp ao Síndico pedindo que me informasse os danos provocados para que eu assumisse os custos. Nunca me respondeu. Hoje, uma moradora me abordou, educadamente falando deste caso e eu concordei com ela sobre o problema e reafirmei que pedi os custos, mas que não me enviaram. Ela disse: "Eu sei, mas a questão é que pela convenção do condomínio, não permite a circulação de animais nas áreas comuns, e hoje teremos reunião do condomínio..." Eu disse que imaginava o que dizia tal convenção, mas que eu nunca a recebi, mas que tudo bem, pois a maioria fala a mesma coisa.
A questão é a falta de empatia e intolerância. E se eu começar a reclamar dos barulhos dos vizinhos? Dos barulhos das crianças e adolescentes? E dos amassos ou riscos na porta do meu carro? A vida se tornaria um inferno.
Bem sei que pelo perfil de quem mora aqui, terei que deixar os gatos presos e só deixá-los sair com coleiras.
Tudo bem, por enquanto. Pois os gatos já entraram para a família e se o condomínio tem restrições sobre um membro dela, tem sobre mim também. Ou seja, brevemente nos mudaremos, com certeza, afinal de contas os incomodados que se mudem, literalmente, pois não podemos viver num lugar com tanta hipocrisia e intolerância.


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